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XII

O teu gesto de alegria
nunca será para mim.

O teu conflito noturno
este sim
pousará na minha face.
Hilda Hilst

X

Brilhou um medo incontido
na tua face de luz.
E teu amor resguardou-se
e silenciou.

Quis esconder os meus dedos
nos teus cabelos de mágoa
mas a tua mágoa era grande
para fugir no meu gesto.

Agora o amor é inútil
e inútil o meu consolo.
Estamos sós.

Entre o teu amor
e o meu afago,
aquele triste mundo de certezas.
Hilda Hilst

VII


Maria anda como eu:
Impossibilitada de fazer
tudo o que quer.

Tem mãos amarradas,
ar de doente, olhar de demente,
cansada.

Maria vai acabar como eu:
covarde nas decisões,
amante das cousas indefinidas
e querendo compreender suicidas.

Maria vai acabar assim sem rumo,
andando por aí,
fazendo versos
e tendo acessos
nostálgicos.

Maria vai acabar
bem tristemente.
De qualquer jeito,
lendo jornais,
tendo marido
indefinido.

(Não sei por que Maria
quer compreender
muito, demais,
a vida do suicida.
E Maria vai acabar
se fartando da vida.)

A vida, coitada,
é camarada, gosta de Maria,
quer fazer Maria viver mais,
porque Maria é desgraçada.
Quer deixá-la para o fim,
assim à mostra,
e eu francamente não entendo
por que Maria não gosta
da vida.
Hilda Hilst

XII

Dia doze... e eu não suportarei
o estado normal das cousas.
O ano que vem, não vou desejar
felicidades a ninguém.

Nem bom natal, nem boas entradas.

Meus amigos sabem de tudo o que eu sei.
E continuam a viver sem interrupção,
apressadamente como no ato do amor.
São doidos e não percebem que amanhã
Cristina não virá.
Que amanhã Cristina vai morrer
porque ama a vida.

Amanhã serei corajosamente Cristina.
Eu, amando todos os que sofrem.
Eu... essência.

Mas os meus amigos, coitados,
não percebem.
Fazem filhos nascer, fazem tragédia.
Não sabem que o amor não é amor
e a natureza é um mito.

Não sabem de nada meus amigos.
E não vou explicar
porque podem ficar sentidos.
São puros, vão morrer como anjos.
Vão morrer sem nada saber
daqueles dias perdidos.

Vão morrer sem saber que estão morrendo.
Hilda Hilst

I

Corpo de argila
meu triste corpo
não é verdade

se te disserem
minha elegia
ser mais vaidade
do que homenagem.

Por que o seria?
Me adivinhaste
quando a palavra
nada dizia

e longo tempo
(quando se amava)
havia dias
em que choravas

e estremecias.

Falam de ti.
Da tua pouca
fidelidade.

Mas o que importa
a infinidade
dos teus amantes
se toda vez
que te entregavas
extenuado

te perdias.
Ah, se a poesia
me permitisse
voos mais altos

mesmo na morte
as confidências
que eu te faria...

Ainda me tens.
E bem por isso
destila em mim
teu peso enorme.

E no poema
que te dedico

meu triste corpo
ainda uma vez
chora comigo
chora comigo.
Hilda Hilst

V

Amargura no dia
amargura nas horas,
amargura no céu
depois da chuva,
amargura nas tuas mãos

amargura em todos os teus gestos.

Só não existe amargura
onde não existe o ser.

Estão sendo atropelados
em seus caminhos,
os que nada mais têm a encontrar.
Os que sentiram amargura de fel
escorrendo da boca,
os que tiveram os lábios
macerados de amor.
Estão terrivelmente sozinhos
os doidos, os tristes, os poetas.

Só não morro de amargura
porque nem mais morrer eu sei.
Hilda Hilst

VII

Restou um nome de bruma
no meu eterno cansaço.

Restou um tédio de cinza
no meu todo de silêncio.

Tanta tristeza no meu sono imenso...
Hilda Hilst