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As figuras

Mas por que motivo os nossos barcos já não têm mais as belas figuras de proa, ou a proa em forma de figura, como os dos vikings? E não seria também melhor que os nossos aviões encantassem os ares com as suas configurações de aves ou peixes ou maravilhosos animais de sonho? Hoje apenas irritam-nos com o seu rumor e as suas formas exatas. Queremos um mundo estritamente funcional. Tudo muito lógico, sim, mas será humano? Conviria não esquecer que o adorno veio antes do vestuário...

Mario Quintana

Do Bem e do Mal

No fundo, não há bons nem maus. Há apenas os que sentem prazer em fazer o bem e os que sentem prazer em fazer o mal. Tudo é volúpia...

Mario Quintana

Teste

Ontem, quando procurava recordar qual a seqüência dos Dez Mandamentos, não consegui ao menos lembrar-me de todos eles. O Diabo sorriu amarelo. Estava garantido o meu lugar no Céu.

Mario Quintana

Mehr Licht

Não, esta luz não me engana. É como se houvessem acendido de repente um fósforo no escuro: a chama arde, bruxuleia, morre... Chama que pode durar uns poucos anos, como nós. Ou milhões e milhões de anos, como o mundo. Mas sempre chama, sempre uma pobre chama efêmera..

Mario Quintana

Imaginação

A imaginação é a memória que enlouqueceu.

Mario Quintana

Conto de horror

E um dia os homens descobriram que esses discos voadores estavam observando apenas a vida dos insetos...

Mario Quintana

Decadência e esplendor da espécie

Não sei o que terá acontecido com a espécie humana. Esta ausência de pêlos... Para os outros mamíferos a nossa nudez pode parecer repugnante como, para nós, a nudez dos vermes. E, depois, a nossa verticalidade é antinatural. Estas mãos pendendo, inúteis, são ridículas como as dos cangurus sentados. Se fôssemos veludos e quadrúpedes, ganharíamos muito em beleza e, sem a atual tendência à adiposidade, poderíamos ser quase tão belos como cavalos. Felizmente, inventou-se a tempo o vestuário, que, pela variedade e beleza (a par de sua utilidade em vista do fatal desabrigo em que ficamos) redime um pouco esta degenerescência. E acontece que inventamos também o mobiliário, os utensílios: no caso vigente, esta cadeira em que escrevo sentado a esta mesa, à luz artificial desta lâmpada. E ainda este ato de escrever, isto é, de expressar-me por meio de sinais gráficos, é mais uma prova da nossa artificialidade. Mas quem foi que disse que eu estou amesquinhando a espécie? Quero apenas significar que, em face das suas miseráveis contingências, o homem criou, além do mundo natural, um mundo artificial, um mundo todo seu, uma segunda natureza, enfim. O homem, esse mascarado...

Mario Quintana
AMIZADE

Quando o silêncio a dois não se torna incômodo.

AMOR

Quando o silêncio a dois se torna cômodo.

Mario Quintana

Luz por dentro

Mas há uma beleza interior, de dentro para fora, a transluzir de certas avozinhas trêmulas, de certos velhos nodosos e graves como troncos. De que será que ela é feita, que nem notamos como a erosão dos anos os terá deformado. Deviam ser caricaturas mas não fazem rir, uns aleijões mas não causam pena. O mesmo não nos acontece ante o penoso espetáculo de um animal velho. Eu gostaria de acreditar que essa inexplicável beleza dos velhos talvez fosse uma prova da existência da alma.

Mario Quintana

Poeminha do contra

Todos esses que aí estão 
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!

Mario Quintana

Das frases históricas

Desconfio que essas frases históricas foram inventadas pelos historiadores, pois como poderiam os grandes homens ter tido, todos eles, aquele mesmo estilo dramalhão?

Mario Quintana

Contradições?

...mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.
E por isso é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, com toda a sinceridade, as coisas mais opostas.
Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.

Mario Quintana

Cuidado!

A nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer.

Mario Quintana

Primitivismo

Datilografia: escrita por batuque.

Mario Quintana

O pobre do Espaço

O espaço é cheio de buracos: nós, as coisas, os mundos. A perfeição seria o espaço puro, fica ele a pensar com os seus buracos... Mas isso, Sr. Espaço, é uma coisa tão impossível quanto a poesia pura.

Mario Quintana

A grande catástrofe

No início era o Verbo. O Verbo Ser.
Conjugava-se apenas no infinito. Ser, e nada mais.
Intransitivo absoluto.
Isso foi no princípio. Depois transigiu, e muito.
Em vários modos, tempos e pessoas. Ah, nem queiras saber o que são as pessoas: eu, tu, ele, nós vós, eles...
Principalmente eles!
E, ante essa dispersão lamentável, essa verdadeira explosão do SER em seres, até hoje os anjos ingenuamente se interrogam por que motivo as referidas pessoas chamam isso de Criação...

Mario Quintana

Coisas do tempo

Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.

Mario Quintana

O relógio

O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede: conheço um que já devorou três gerações da minha família.

Mario Quintana

Presença


É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,

teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto – em mim – a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mario Quintana

O mapa


Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo…


(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei…


Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei…)


Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso


Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)


E talvez de meu repouso…
Mario Quintana