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No descomeço era o verbo. 
Só depois é que veio o delírio do verbo. 
O delírio do verbo estava no começo, lá 
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos 
passarinhos. 
A criança não sabe que o verbo escutar não 
funciona para cor, mas para som. 
Então se a criança muda a função de um 
verbo, ele delira. 
E pois. 
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz 
de fazer nascimentos – 
O verbo tem que pegar delírio.

Manoel de Barros

Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores.
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)
Também as latrinas desprezadas que servem para ter grilos dentro – elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violetas.)
Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
(O abandono me protege.)

Manoel de Barros